O wordpress recentemente me amaldiçoou com sua versão portuguesa. E digo amaldiçoado não porque ache a língua portuguesa feia – longe disso, uma das mais belas – mas porque agora, toda vez que abro o site, tenho que me deparar com as belezuras da blogosfera lusófona.
À parte disso, me deparei uns dias atrás com este post e só agora criei saco para demolir esse monte de besteiras que algum cérebro infértil tratou de digitar e postar na internerd.
Acho que algum gayzista estava sentado [sentado?] em seu computador uma noite, entediadíssimo, e resolveu exercitar a ironia. Podem se perguntar por que eu me ocuparia com um post de propósito jocoso óbvio. Eu explico: entre as armas da guerra cultural, figura a comédia entre as principais em face de sua capacidade de atingir as massas – um dos artifícios da demagogia. Desse modo, embora seja uma coisita criada por um espírito mal formado para outros espíritos mal formados, acho que ela bem merece a minha atenção para que haja alguma alternativa aos que a buscam. E quem chorar isso, certamente vive em um ciberespaço em que a agenda gay jamais é promovida, neo-nazistas comandam a web e a militância homossexual está confinada a uns gatos pingados em obscuros porões – aquele tipo de gente que divulga zine eletrônico através de sites cuja entrada se dá por algum proxy oculto ou artifícios mais engenhosos. Colarei as 10 “premissas” uma a uma e mostrarei por que são todas incoerentes.
1. Ser gay não é natural. Brasileiros de verdade sempre rejeitam as coisas artificiais, como lentes de contato, poliéster e ar condicionado.
A discussão acerca da naturalidade do homossexualismo ou não sequer pode se dar. Quando um dos lados da discussão está amordaçado e foi expelido da comunidade científica [cof, cof, cof] a discussão se torna impossível – discutir o que onde há consenso?
A ironia aqui é a seguinte: se aceitamos coisas artificiais como a tecnologia e – aceitando que a linha de raciocínio segundo a qual ser gay é algo artificial – ser gay é artificial, logo devemos aceitar os gays.
A falácia aqui é o velho non sequitur. O autor desse argumento iguala desenvolvimento cultural e moral com desenvolvimento tecnológico. Iguala a idéia de progresso cultural com a idéia de progresso científico. Uma besteira sem tamanho – a cultura de uma sociedade e seu grau de desenvolvimento tecnológico são coisas distintas. Uma coisa influi na outra – especialmente a primeira na segunda – mas isso não permite equacioná-las.
Isso sem falar que ele provavelmente se auto-contradiz: certamente acha que o homossexualismo é algo natural. Se elabora um argumento em que tal conduta é tida como sua antítese, ele nega a própria convicção. The ends justify the means…
2. O casamento gay vai encorajar pessoas a serem gays, da mesma forma que sair com pessoas altas vai fazer você ficar mais alto.
Aqui ele ignora o fato de que ser gay implica, na maioria dos casos, a adoção de uma série de patterns comportamentais que são vulgarmente conhecidos como “cultura gay”.
Ou seja, os “pais”, que provavelmente são influenciados ou fazem parte de tais meios e vivenciam tal sub-cultura, não irão “plasmar” isso na educação dos “filhos”. E compara uma influência ÓBVIA com desenvolvimento corporal.
3. Legalizar o casamento gay vai abrir um precedente pra todo o tipo de comportamento maluco. As pessoas podem até querer casar com seus bichos de estimação.
Já está abrindo precedentes para isso. Se soubesse que a pedofilia está marchando, não falaria uma dessas. E não falaria uma dessas se soubesse que a pressão de tais grupos imita LITERALMENTE o que os lobbies gays fizeram na década de 70.
E isso seria apenas começar, não quero me delongar muito.
4. O casamento hetero esteve aí este tempo todo e nunca mudou: mulheres continuam sendo propriedade dos homens, negros não podem casar com brancos e o divórcio continua ilegal.
As mulheres jamais foram propriedade dos homens, o casamento jamais se fundou em uma relação de propriedade de um indivíduo sobre o outro [exceto na cabeça de feministas histriônicas], o casamento jamais teve base racial e o divórcio jamais foi ilegal.
Agora a realidade: o casamento sempre foi uma instituição que se baseou na diversidade de gênero e sempre buscou a reprodução da espécie.
5. O casamento hetero perderia o sentido se o casamento gay fosse permitido. O sacramento do casamento só de zoação de 55 horas da Britney Spears seria destruído.
O “casamento hetero” já está perdendo o sentido onde o “casamento” gay foi legalizado.
Quanto a casamentos fabricados na mídia, ou as besteiras que Las Vegas homologa, nem vale a pena comentar. Saindo da boca dos autores da revolução sexual, que banalizou o sexo e demoliu a família nuclear, esse argumento não possui o menor cacife.
Outra coisa: acho estranho criticar a Britney Spears aqui. Uma hora ela é ícone gay, na outra pode ser malhada. The ends justify the means.
6. Casamentos heteros são validos porque produzem crianças. Casais gays, pessoas inférteis e pessoas velhas não devem ter o casamento permitido, porque nossos orfanatos não estão cheios o suficiente, e o mundo precisa de mais crianças.
Pessoas inférteis não devem mesmo ter o casamento permitido, pelo menos quando se trata de um fértil em um infértil. Não há de se prender quem pode gerar prole a quem não pode. Isso é fato. Aqui a lógica é a que conduz à morte dos povos – cortes populacionais, fim da continuação do sangue. É uma violação essencial da lógica natural das coisas que só doutrinas anti-nacionais podem empreender. Malthusianismo ataca novamente.
Os velhos, na maioria dos casos, já tiveram seus filhos – a vida continua – e não vou me imiscuir na questão da diversidade de sexo paterna ser essencial para uma criança, idéias de complementaridade e blábláblá. Não sou pediatra – e aposto que quem escreveu isso também não é. No mais, aqui basta dizer que confio mais em um modelo que funcionou por milhares de anos que em um que mal tem meio século e só nos gerou problemas.
7. Obviamente pais gays só criam filhos gays, assim como casais heteros só criam filhos heteros.
Ironiza um argumento bem idiota de alguns conservadores desmiolados.
É uma ironia parcialmente válida, mas vide a minha resposta ao argumento 1.
8. O casamento gay não tem o apoio dos religiosos. Numa teocracia que nós vivemos, os valores de uma única religião têm que ser impostos sobre todas as pessoas do país inteiro. É por isso que temos apenas uma religião no Brasil.
Uma dose de secularismo como é típico. Aqui ele estende uma questão institucional à sociedade e à nação.
No fim do dia, o casamento ainda é uma instituição essencialmente religiosa, não há quem prove o contrário. Ainda mais quando o “casamento” gay tornou-se um tema na comunidade jurídica em virtude do patrimonialismo, não em função de qualquer moralidade ou “senso de comme il faut“.
Não vou perder meu tempo dando palmadas na ironia secularista, estou discutindo apenas “casamento” gay aqui.
9. Crianças nunca podem ter sucesso sem o papel de um modelo de homem e mulher em casa. É por isso que na nossa sociedade é estritamente proibido pais ou mães solteiros criarem crianças sozinhas.
Vide resposta 6.
10. O casamento gay vai mudar os fundamentos da sociedade; nós nunca poderemos nos adaptar a novas normas sociais. Assim como nós não nos adaptamos aos carros, ao terceiro setor, vidas mais longas e a internet.
Aqui é o mesmo non sequitur com o qual ele construiu o primeiro “argumento”, vale a mesma coisa. Mas aqui devo ressaltar que a adição da idéia de continuidade cultural gera um plus que vou comentar. Aqui ele confunde “adaptação” com “subversão” – não sabe a diferença entre o que é contingente e o que é essencial.
A diversidade de sexos é essencial à instituição do casamento – ele não existe sem isso, ele foi construído com base nessa premissa. A legislação de vários países estipula e estipulava deveres conjugais a cada um dos gêneros. Um exemplo de contingência da instituição é aquela referente ao dote: a pecúnia não é essencial ao casamento. Antigamente dotava-se a noiva, era uma convenção social. Com o passar do tempo, isso se tornou desnecessário – o casamento não mudou por conta disso: porque não é de sua substância o aspecto pecuniário.
A idiotice se completa porque ele não percebe que, basicamente, o argumento 10 é o argumento 1 melhor elaborado. deve ter ficado doido para chegar ao simbolismo que “10 motivos” geram na cabeça das pessoas.
Enfim, eis aí os 10 argumentos demolidos à exceção do que deve se dar na criação das crianças. Quanto a isso, acho mais apropriado buscar alguém que estude o assunto – e seja imparcial.
Não é preciso pensar muito para demolir essas besteiras. Não é algo bem-estruturado: não passa de propaganda. Golden quotes para uns ignorantes terem argumento, ou um pouco de humor para quem tem mau gosto.
No mais, vou trancar os comentários para esse post. Não quero discutir com vocês – eu não gosto de democracia, então não me encham o saco. Eventuais respostas a esse post incluirão: raiva, escárnio [a mais típica], ironias e denúncias.
Agora vou fumar meu cachimbo. Com licença.
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