Meu propósito aqui é mostrar como esse argumento é inconsistente. A premissa é a seguinte: comprovado, em pesquisas, que o homossexualismo é existente e normal em várias outras espécies de animais, não deve ser considerado como anti-natural ou moralmente rejeitável por nenhuma sociedade humana. Ainda que pesquisa científica deliberadamente posta de lado mostre que a questão é controversa [e aí começam os percalços], para o efeito que busco aqui, vou admitir que o homossexualismo em animais é fato. Isso talvez alegre os gayzistas, mas não vai lá durar muito tempo…
Não vou relevar que, ainda que seja existente, trata-se de exceção à regra: a maioria dos animais e a maioria da humanidade é heterossexual. Isso é útil moralmente, mas não cientificamente – objetivamente, nada muda a assunção de que trata-se de uma naturalidade. Daqui para frente, partamos para a velha dialética para melhor mostrar o desenvolvimento lógico da coisa.
Pois vem-me um gayzista com essa, e assumo – a despeito da possibilidade de discussão científica – que é possível que seja verdade:
-Pois sim, assumamos, então, que seja verdade. O argumento, então, é de que a conduta está disseminada numericamente e, portanto, rejeitá-la é incoerente?
-Exatamente. Se, no reino animal, é normal a homossexualidade, então deve valer o mesmo para as sociedades humanas.
-Mas, ainda no reino animal, tal conduta é uma exceção, é comportamento minoritário…
-E não faço objeção. Na humanidade a população homossexual também é minoria. O caso aqui é que não deve ser considerado imoral.
-Mas diga-me, então: não é verdade que o incesto também é praticado em algumas espécies animais? Não sei quanto a eles, mas sabemos que a possibilidade de doenças congênitas na espécie humana é um fato… mas já que é praticado pelos animais, deve ser aceito como algo moralmente lícito?
-Não acho que seja bem por aí…
-E não é também verdade que é até comum que alguns animais comam ou matem seus próprios filhotes em situações de perigo ou em casos de depressão, para exemplificar algumas causas? Por isso, deve-se dar carta branca aos pais para que matem e comam seus filhos?
-Não, não se deve…
-Ah, mas me responde isto também: nas sociedades humanas encontramos mais pensadores ou mais ignorantes?
-Ignorantes.
-Encontramos mais gente capaz de trabalhar com os ofícios ou mais gente incapaz?
-Mais gente incapaz…
-Encontramos mais ricos ou mais pobres?
-Mais pobres.
-Diz-me, então: não é há muito tempo que se sabe – sendo isso, inclusive, pedra angular da visão de mundo de algumas religiões – que a humanidade vive chafurdando o que é mau e profano, sendo a maldade muito mais fácil de encontrar e notar que a bondade?
-É bem verdade.
-Há como negar tal proposição sem se tornar um relativista moral? Digo, negá-la pela simples afirmação de que bem e mal não existem?
-Pensando rapidamente agora, não saberia dizer…
-Pois bem, eis a conclusão a que se deve chegar: nas primeiras duas hipóteses, é simplesmente impossível partir de condutas observáveis em animais para criar padrões éticos para a humanidade. Isso se dá porque de um fato não se deduz um valor – é um non sequitur, os fatos são constatáveis através das diversas ciências, enquanto os valores das sociedades humanas são objeto de estudo da Ética e da Axiologia. Mas admito que não se trata disso se puderes me mostrar a relação das competências daquelas com as competências destas.
-Pensando rápido, assim, novamente, não consigo pensar em algo…
-E a outra conclusão, creio que também não se pode negar: ainda que tais fatos possam ser aferidos como valores – o que mostramos, até agora, impossível – a tua lógica de que a disseminação numérica de um fato o torna aceitável não é nada mais nada menos que absurda. É que concordamos que o que mais está disseminado na sociedade humana é a maldade, a mediocridade, a ignorância, a pobreza, tudo aquilo que é profano. Se seguires essa lógica do absurdo, só podemos acabar consagrando a torpeza como exemplo de conduta!
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Em face do exposto, é o homossexualismo em animais coisa outra que não uma peculiaridade científica? Peculiaridade essa que, ainda, é discutível segundo as premissas da ciência?
Não acho que precise adicionar mais nada ao que foi escrito. O único modo de refutar o que está dito é sendo um relativista moral.
NP: Antonin Dvorak – Symphony No.9 in E minor, Op.95 [From The New World]: 3. Scherzo [Molto Vivace]


